Desde criança, ele ficava a imaginar-se num avião. Num carro, numa lancha, enfim, sonhava com máquinas. E fez por onde. Na longínqua Itaituba-PA dos anos de 1.960, quando tudo era difícil, meus pais conseguiam estocar uma caixa de leite, embaixo de sua cama. Ele tinha muita luz.
Nos estudos em Belém, ao atingir o 3° ano, que é a preparação para o vestibular, tomou uma decisão: "Vou fazer curso de piloto". A família ficou sobressaltada. Mas sua vontade prevaleceu. Rumou a Londrina, no Paraná, meça da aviação pequena no Brasil. O nosso pai, Truth, com os ventos favoráveis à época, e com o poder de satisfação nas alturas para "presentear", disponibilizou ao noviço aeronauta as seguintes máquinas: carro Puma GTB V8 e uma moto CB 450. Apesar dos mimos, que poderiam relaxá-lo, conquistou o diploma com louvor. As horas de voo, 40, para definir-se como aeronauta, foram bem mais. Por paixão e condição, fez mais de 100. Apartamento mobiliado com o que se tinha de melhor. E melhor ainda, foi sua atitude, ao findar o curso. Todo o conjunto, inclusive guarda-roupa, fogão, TV e geladeira, ele deu ao zelador do prédio. Imaginem a felicidade do rapaz.
Ao voltar para Itaituba-PA, começou, no então TRUTH TÁXI AÉREO, um dos pioneiros do segmento, uma das carreiras mais brilhantes de aviação de garimpo da Amazônia. Costumo dizer que ele "dominava o difícil e não ligava para o fácil". Fechar uma porta, um creme dental, apagar uma luz.. Não eram seu forte. Agora, conduzindo uma máquina, driblando turbulência e pousando em pista curta, curtíssima, melhor dizendo, era com ele mesmo.
O Cmte Rogério Braga, hoje na Passaredo, conta um fato pra lá de interessante. No começo, a maioria dos profissionais, pilotos famosos, punham um certo mistério em seu aprendizado. Até que ele foi "pegar um duplo" - treinamento- com o Charlles. Para pouso, olhando manso, orientando, tranquilizando.. Pronto. Desmistificou a aviação para ele. Acabou o mistério.
No auge dos anos de 1.980, o nível era assim. O Sr. Truth ligava para a concessionária: "Oh, Ivo. Tudo bem? Seguinte.. Entrega um carro ao Charlles, por favor. Depois vou aí. - Ok, meu amigo Truth. Na hora!" Respondia o concessionário feliz.
As grandes estrelas da música, TV e da passarela nacionais, que vinham se apresentar em Itaituba, em boa parte, era o Charlles que ia buscá-los em Santarém. O então Hotel Tropical era um "parque de recreio" da turma descolada da Cidade Pepita.
O articulado Dj e Gourmet Marco Medeiros diz que se inspirou nele, na apreciação da noite. Nos anos 80, no Rio de Janeiro, o "lendário" ficou ao lado do Rei Roberto Carlos, numa noite exclusiva.
Ao começar a luta contra a famigerada Covid-19, mal que está assolando o mundo, destruindo famílias, ele perguntava sempre pela sobrinha "Quase Doutora Rebecca" (minha filha). Além da confiança, pela desenvoltura e determinação, ao vê-la, parece que estava tendo contato com a família e os amigos queridos.
O popular e criativo Neneca diz. Ele gosta muito de NET.. Janete, manete, caminhonete, valnete. Sim, encerrou sua trajetória com a Valnete. E ela conta que NUNCA viu uma pessoa com tamanho prazer em viver, festejar e reunir com a turma querida.
Num espaço de um ano, perdas gigantes. Primeiro, a nossa matriarca Dulcinéa. Depois, o Diamante Lucas, meu filho. Agora, o queridíssimo irmão.
Não deu para a PLAQUINHA, mas dá para puxarmos o tapete vermelho para esse cidadão simples e sofisticado ao mesmo tempo. Se preocupava com a fome do próximo. Atitudes raras.
Perdemos um NOBRE.
O Charlles Dos Santos Júnior, que é meu sobrinho e afilhado, agora, também eleva-se a categoria de filho.
Vá em paz, meu querido irmão Charlles... O CHARLLES BROWN!
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