Santarém (PA), 5 de fevereiro de 2026 — Um protesto organizado por povos indígenas na região do Tapajós bloqueou, nesta quarta-feira (4), a principal via de acesso ao Aeroporto Internacional de Santarém (PA), gerando congestionamentos, atrasos e transtornos para passageiros e trabalhadores que dependem da rodovia Fernando Guilhon para chegar ao terminal aéreo.
A mobilização, que já dura cerca de 14 dias, faz parte de uma série de ações contra um decreto federal que, segundo líderes indígenas, pode abrir caminho para a dragagem do Rio Tapajós e a concessão de hidrovias, potencialmente viabilizando intervenções ambientais e obras de grande porte no território tradicional.
Impactos no acesso e na rotina
O bloqueio da estrada impediu a entrada de passageiros para voos programados no período noturno e dificultou o deslocamento de funcionários que trabalham no aeroporto. Longas filas de veículos se formaram, deixando motoristas retidos por horas. Passageiros que desembarcaram na cidade foram obrigados a seguir parte do trajeto a pé ou buscar alternativas de transporte para alcançar seus destinos.
O motorista José Diogo de Aguiar relatou que ficou mais de duas horas parado no engarrafamento causado pela mobilização. Já a aposentada Igelvane de Souza, que desembarcou na cidade, afirmou ter perdido um compromisso devido ao bloqueio, ressaltando a dificuldade de mobilidade enfrentada pelos usuários do aeroporto.
Motivações do protesto
Os indígenas presentes no bloqueio afirmam que o decreto foi publicado sem consulta prévia às comunidades tradicionais, condição exigida pela legislação nacional e por convenções internacionais. Eles alertam que qualquer intervenção no rio — especialmente dragagem, construção de portos ou concessões para uso privado — ameaça não apenas o meio ambiente, mas também o modo de vida, os milenares vínculos culturais e o equilíbrio ecológico da Amazônia.
A liderança indígena Alessandra Munduruku declarou que “quando mexe com o rio, mexe com o nosso mundo espiritual”, enfatizando a importância do Tapajós como fonte de vida, saúde e conexão entre aldeias. Já Auricélia Arapiun alertou que o decreto pode caracterizar uma forma de privatização das hidrovias, sem respeitar os direitos e a participação das comunidades locais.
Posicionamentos oficiais
Em nota, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que o governo federal mantém o diálogo com lideranças indígenas e ressaltou que nenhuma iniciativa relacionada à dragagem ou concessão de hidrovias avançará sem a devida consulta prévia, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A empresa Aena, responsável pela administração do aeroporto, afirmou que acompanha a situação com autoridades federais e que, até o momento, as operações aéreas não sofreram impacto direto, apesar dos transtornos no acesso terrestre.
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